Quando a família só tem um imóvel, este é considerado “Bem de Família” perante a Constituição. Por isso jamais será penhorado, a não ser em casos especiais, como pra pagar dívidas tributárias do próprio bem.
Quando João Estrela conta à juíza que sua família vendera o apartamento em que morava pra pagar seu advogado, a magistrada, bem interpretado em “Meu nome é Johnny” por Cássia Kiss, não duvida de que o playboyzinho sentado à sua frente é tudo menos um discípulo de Pablo Escobar.
Esse é o ponto crucial do longa do Selton Mello dirigido por Mauro Lima. Quem já conviveu com dependência química não concorda com os moralistas que acusam o roteiro, baseado no livro homônimo do jornalista Guilherme Fiúza, de pintar o traficante com tintas de boa praça e carismático.
Primeiro, quem disse que traficante precisa ter cara de mau? A cartilha maniqueísta da Rede Globo? E o Joãozinho em questão estava muito mais pra mané do que pra delinqüente.
Torrando nas festinhas de casa, a dinheirama que pingava em seu cofrinho, não pretendia enriquecer às custas dos narizes alheios. Pra ele, a droga era muito mais uma isca pra fazer amigos e conquistar pessoas.
Ter os canais na mão, o fazia se sentir poderoso, querido, enturmado, importante. Tudo o que um “adicto”, na maioria dos casos, não se sente. A auto-estima baixa pode não encontrar justificativa naquela família tão bem estruturada. Mas que a dependência química do Joãozinho tem tudo a ver com a adição do pai ao tabaco eu posso apostar.
Não é porque a venda do cigarro é legal que depender de tabaco também não seja doença. Nesse sentido, o filme pode ser uma luz no fim do túnel escuro da desinformação.
Ele não vai acabar com a violência do crime organizado. Mas pode reduzir o tráfico de informações equivocadas e preconceituosas que misturam, num mesmo papelote, usuários e dependentes, estigmatizando sob o rótulo de drogados, as vítimas e algozes de um comércio que pode ser nocivo à sociedade. Mas está longe de ser tão letal quanto a indústria de bebidas.