Chega de Saudade", o último filme da diretora Laís Bodansky me convenceu, de uma vez por todas, de que, felizmente, as novelas da Globo podem até camuflar o talento de seu elenco por trás de papéis estereotipados, onde repetem sempre o mesmo personagem, mas não conseguem anulá-lo.
Existe vida inteligente pra essa turma fora dos portões do Projac. Paulo Vilhena, por exemplo, que sempre achei péssimo em seus papéis de playboyzinho mimado, se revela no filme, como o namorado ciumento da encantadora Maria Flor, embevecida com as investidas do sempre excelente Stepan Nercesian.
Cássia Kiss, que de tão "acabada" numa novela recente, suspeitou-se até estar sendo acometida de envelhecimento precoce, ressurge linda no filme, esbanjando a mesma expressividade que a consagrou, recentemente, em "Meu nome não é Johnny".
E o que não dizer de Betty Faria, finalmente livre da camisa de força do figurino japonês novelesco, à vontade pra exercer os dotes artísticos que Reichembach tão bem explorou em "Anjos do Arrabalde"? E por aí vai. Clarice Abujamra, Miriam Mehler, Leonardo Vilar, a quase centenária Tônia Carrero, enfrentando os closes de Walter Carvalho com a dignidade de quem sabe que talento, como os bons vinhos, não envelhece, aperfeiçoa.
Até o nome de Daniel Filho na co-produção, que costuma anunciar mais uma bobagem global, desta vez mostrou que o produtor está aprendendo a apostar em cinema de qualidade. Abaixo a pasteurização global. Viva o Cinema Brasileiro!