Um dos favoritos nas apostas do Oscar 2008 por seu papel de mafioso russo em "Senhores do crime", de David Cronenberg, Viggo Mortensen, já trabalhara com o diretor em “Marcas da Violência”, que o HBO exibiu neste sábado.
Seu personagem, Tom Stall, um pacato dono de bar numa cidadezinha perdida no interior dos Estados Unidos, põe seus demônios pra fora ao ver seu estabelecimento ser assaltado. Com uma agilidade surpreendente pra um homem tão decente, liquida os bandidos num piscar de olhos e vai pras manchetes dos jornais como o herói do pedaço.
É aí que o bicho pega. Com a mídia cada vez mais globalizada, seus feitos chegam aos ouvidos e aos olhos de uma gang da Filadélfia, de onde Tom, ainda com o nome de Joey, fugira após desfigurar o rosto de uma espécie de “Coringa” local.
Buscando vingança, o vilão interpretado por Ed Harris, passa a perseguir o paizão exemplar, desmoronando o sonho americano da família perfeita onde não faltam a esposa gostosinha e apaixonada, o adolescente que não leva desaforo pra casa, nem a garotinha linda e loira que acorda à noite com pesadelos.
Com olhar aguçado e canadense sobre o American way of life, Cronemberg, que já tinha mostrado em “Gêmeos - Mórbida Semelhança”, “Crash” e “A Mosca” não temer esquisitices, discute, penso eu, o direito à segunda chance que, em princípio, não deveria ser negado nem aos piores criminosos. Um tema pra reflexão numa sociedade que costuma estigmatizar seus infratores, levando-os a perpetuar-se na atividade criminosa, muitas vezes por absoluta falta de chances em qualquer outra.