Entrevistas    
    ROCKABILLY BRASILEIRO - CRAZY LEGS - Felipevilasanchez    
   

O Rockabilly é um estilo de música surgido na década de 50, nos Estados Unidos. Influenciado pela música country do sul dos EUA misturada à música negra, como o Rhythm and Blues, tem entre seus maiores nomes ninguém menos que Elvis Presley, adepto do estilo durante o início de sua carreira, Jerry Lee Lewis, autor da conhecida Great Balls of Fire e Chuck Berry, autor de Johnny B. Goode.
Da década de 50 aos dias de hoje, o Rockabilly se espalhou pelo mundo e virou um estilo de vida para os fãs mais fervorosos, que usam topetes, se vestem segundo a moda dos anos 50 e gostam de toda a cultura da época. E não foram só o estilo e as músicas que estão vivos até hoje. Novas bandas de Rockabilly surgem a cada dia, renovando a cena e seduzindo novos adeptos do estilo.
Uma das bandas mais importantes do Rockabilly mundial é a brasileira Crazy Legs, que apesar de nunca ter feito nenhuma turnê internacional, tem um grande público lá fora e recebeu ótimas críticas com seu mais recente álbum, Rockabilly Trio, lançado ano passado pelo selo Bad Habits Records.
Fábio McCoy, baterista da banda e dono do selo, nos deu uma entrevista, na qual falou sobre Rockabilly, sobre o Crazy Legs, sobre seu selo, que é o único especializado em Rockabilly no Brasil, e sobre a política e juventude brasileiras.

Chega São Paulo – Como começou sua paixão pelo Rockabilly?
Fabio McCoy – Eu era pivetinho, tinha uns 8 anos, por aí. Então eu ganhei de presente da minha mãe um vinil do Elvis. Na época foi um vinil que o SBT lançou, tipo The best of Elvis Presley. Então tinha anos 50, 60 e 70. Então, acho que o meu maior interesse desde pequeno foi Elvis. Aí eu fui crescendo e fui saber que existia rockabilly, mas meu primeiro contato foi com o básico, com o Elvis, Jerry Lee [Lewis], Bill Haley.

CSP – Como começou o Crazy Legs?
FM – O Crazy Legs é o seguinte: eu e o Sonny, depois de freqüentar festas de Rockabilly por um tempo, isso de 88 a 89, a gente foi conhecendo as pessoas do meio.Em 92 criamos a banda Outsiders. Ela durou de 92 até 96. A banda acabou porque o guitarrista saiu, aí a gente conheceu o Henry Paul, e a gente montou o Crazy Legs. No começo também não se chamava Crazy legs, chamava Elvis Rocker, porque a banda só tocava cover do Elvis dos anos 50. Era um projeto despretensioso, a gente não tinha a menor intenção de fazer música própria, de nada. Então a gente teve um convite para gravar um disco, por um produtor, e ele falou: “se vocês querem gravar um disco, é legal trocar o nome da banda”. A gente tava ensaiando em casa e “putz, agora tem que escolher o nome da banda”, e a gente pensou, pensou, pensou num monte de nome, e aí, por causa de uma música do Gene Vincent, que todo mundo gostava, eu, o Sonny e o Henry Paul, na época, a gente colocou o nome de Crazy Legs, que é o nome de uma música do Gene Vincent que foi lançada em 56. O primeiro show com o nome Crazy Legs foi dia 16 de agosto de 96, então a gente conta o nascimento da banda a partir de agosto, mas na realidade, a gente se juntou pra fazer isso aí em abril de 96, mas como Crazy Legs, dia 16 de agosto de 96.

CSP – Quando vocês começaram a banda, tiveram muita dificuldade?
FM – Todas as dificuldades do mundo! Porque assim, hoje é fácil, você vai num estúdio, você grava uma demo com uma qualidade razoável. Na época, só tinha estúdio tosco, porque a gente não tinha grana para pagar um estúdio profissional, então à gente se submetia ao que tinha. Para você armar shows bons, para você arrumar uns shows, também, era problemático, porque a gente só tocava naquela ceninha Rockabilly.

CSP – Porque você acha que o pessoal da cena punk e hard core gosta de vocês?
FM –A gente faz um som simples, a gente faz um som honesto. São três caras no palco que fazem, não vou dizer tanto barulho quanto uma banda de Hard Core, mas assim, é uma proposta simples que nem o punk. A gente faz, primeiro, porque a gente gosta. O que seria um obstáculo seriam as letras em inglês, mas isso não teve problema. E acho que é mais pela simplicidade do som, porque tem muito a ver, que nem o Ramones nos anos 70, e outras bandas punks dos anos 70, vieram para devolver a rebeldia que tinha se perdido no Rock n’ Roll durante os anos 60 e 70.

CSP – O disco mais recente de vocês foi gravado em vinil, não foi?
FM – Isso. A gente fez um compacto. Até pelo seguinte, todos nós da banda somos fãs de vinil. Eu coleciono vinil, o Sonny também, o Caio também. Uma outra coisa é que nos anos 50, todo mundo lançava compacto, só tinha o vinil na época. Então era compacto, de 45 rotações, ou era LP, que a gente conhece.

CSP – Você é dono de um selo. O que você pensa sobre baixar músicas na internet?
FM – Eu baixo música. Eu acho super válido, porque a Internet é uma ferramenta de música e de informação, acima de tudo. Então eu baixo para conhecer banda nova para eu comprar o disco, ou para quando eu viajo, eu ver o show dos caras. Acho que a maior ferramenta para mim é a informação. Tem gente que não tem dinheiro, e vai baixar, porque aqui no Brasil, para você importar disco, sai caro. Então, vamos supor, tem gente que é meio inescrupulosa e que vai vender um disco importado a 70 reais. Então, o mercado alternativo não é muito atacado pela pirataria. Porque em massa, essa coisa de máfia, de pirataria, grandes corporações que os caras laçam 100 mil cópias e lançam o CD a 30 pau, o que é inviável, lógico que vai haver a pirataria. O setor do underground não é tão afetado, mas infelizmente tem moleque que não tem grana para ter o disco, então a alternativa que eles têm é baixar. Então a única alternativa que ele tem é, já que ele paga uma mensalidade de um Speedy, de uma internet, é baixar. Tem os dois lados da moeda aí, é meio complicado. A gente tem um bom público que vai comprar os discos, mas também essa própria, entre aspas, pirataria, não é o câncer da sociedade. Acho que não é o final do mercado fonográfico do jeito que a gente conhece.

CSP – Você prefere que o Rockabilly fique no underground ou gostaria que fizesse sucesso no mainstream?
FM – Olha, eu prefiro do jeito que está, cara. Porque se não vem muita gente oportunista. Imagina, o som que eu mais gosto na minha vida virar trilha sonora do próximo verão, tocar na malhação, tocar no Gugu, no Faustão. Uma massificação, acho que seria prejudicial, que nem o que aconteceu com o Hard Core.

CSP – Quais são os planos do Crazy Legs para o futuro?
FM – Lançar mais um álbum em breve e continuar fazendo música de qualidade.

CSP – Como um artista, qual é a responsabilidade que você tem para com seu público?
FM – Essa é uma pergunta difícil. A maior é fazer um trabalho honesto. Não vou dizer que é fazer o que eles querem ouvir. Acho que, primeiramente, a gente vai se agradar para depois agradar aos outros. Acho que isso é o principal de tudo. As nossas letras acho que a maior mensagem delas é diversão, e a gente quer isso e espera isso dos outros quando a gente vai fazer um show, quando a gente vai gravar um disco.

CSP – Você acredita na política brasileira?
FM – É a primeira entrevista que eu falo de política, até porque eu não gosto de política, eu não entendo nada de política. Mas não é nem pelo Rockabilly ser apolitizado, é que desde moleque, eu nunca me interessei por política. Eu acho que aqui está um circo. Todo mundo faz o que quer, os caras não têm respeito pelo povo brasileiro, pelas vontades do povo. Aqui é um país que tem grana, tem recursos naturais, mas não vai para frente pela mão de quem está dirigindo.

CSP – O que você acha da impunidade desses políticos?
FM – Eu acho isso aí meio que horrível, porque isso só vai contribuir para que as novas gerações de políticos sejam corruptos, falem assim “ah, não pega nada, eu vou poder roubar, o meu irmão, o meu parente, vão poder roubar, eu vou empregar eles, não vai pegar nada, entendeu? Eu posso dar desfalque aqui, desviar merenda dali, o material de hospital daqui, e em vez de eu fazer uma escola eu vou pegar a grana para mim, vou investir, vou mandar para a Suíça.” É uma coisa meio que cíclica, totalmente condenável, e só vai criar uma outra geração de ladrões.

CSP – Você acha que tem uma solução para esse problema?
FM – Põe uma bomba e começa de novo!

CSP – E o que você acha da mídia? Tem uma influência política, comercial?
FM – Tudo é pelo interesse. Acho que o mundo, ele gira em torno da grana. Lógico que tem político que deve pagar, ou partidos, que vão pagar algumas emissoras para nunca falarem mal dele, ou para ter uma abordagem neutra a respeito das incompetências da pessoa. Acho que a política, lógico, alguns caras, alguns partidos, algumas coisas assim, meio que manipulam a mídia para a maneira que mais convém, que mais interessa, para não ter o seu filme queimado, e que mais pessoas possam votar neles nas próximas eleições, e que não reparem na sujeira que está de baixo do tapete.

CSP – O que você acha da comodidade do jovem de hoje?
FM – O que falta na juventude de hoje é opinião própria. Acho que eles preferem agir como a massa do que com a sua individualidade. Então isso aí vai acabar meio que fazendo um reflexo no que ela pensa na política, de mudanças. Acho que a maior revolução, ela começa em você, você pode ser só um grãozinho no meio de tudo, mas vai ter alguém que vai se influenciar por você e é uma coisa que é uma progressão geométrica, de um, dez, cem, mil, até que uma hora, meu, vai ter, nem que for pequena, mas vai ter uma mudança. A partir do seguinte: a juventude tem que ter os seus gostos próprios, não tem que ir pela massa. Tem que ter a sua individualidade tem que aprender a pensar por si só, não esperar que os outros pensem, que a massa pense, porque hoje está tudo muito fácil, tudo muito pronto, tipo internet, Google. Então eu quero, sei lá, a calça da marca tal porque eu vou ser legal. Não é isso, tem que ter gosto próprio. Você quer andar de cabelo verde na rua, você anda. Você tem que ter suas idéias para você poder fazer essa pequena revolução dentro de você.

CSP – Qual a mensagem que você deixa para a juventude?
FM – Acima de tudo, mantenha opinião própria, não deixe ninguém pensar por você. Não deixar ninguém controlar a sua mente, as Rede Globo da vida fazerem uma lavagem cerebral. É ter opinião própria, só isso. Acho que é o básico.

A entrevista na íntegra pode ser conferida no blog www.guardachuvavoador.blogspot.com
Site do Crazy Legs: www.crazylegs.com.br


   
             
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