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    ANOS 60. A DÉCADA QUE NÃO ACABOU - Helder Modesto    
   

A revista época de janeiro trás uma bela e nostálgica matéria sobre os anos de 68. É com misto de saudade (apesar de ainda nem ter nascido) e saudade que leio e escrevo sobre os anos 60.
Anos 1960. A década que não acabou, marco do século XX com suas convulsões e invaginações frenéticas. Mesmo que você volte na historia, recobrando os anos da revolução francesa, da queda do muro de Berlim, da segunda guerra mundial, no entanto, nenhum deles possui a aura de magia que acompanha 1968. Quarenta anos são passados, mas 68 continua emblemático, fascinante e desordenado como um adolescente em crise existencial. Os anos 60, de forma geral, foram os anos que marcaram profundamente a história dos costumes no ocidente. Foram os anos da livre experimentação, da revolução sexual, do direito à igualdade nas relações íntimas e profissionais, da arte pop, dos protestos contra a guerra do Vietnã, das passeatas, da tropicália, da descolonização afro-asiática, da revolução cultural na china, do cinema novo, dos anos de chumbo, dos Hippies. Foram, sem dúvida, os anos mais marcantes para transformações e mudanças de valores, costumes e êxtase cívico.
Hoje, porem, desapareceu do horizonte qualquer movimento da natureza dos anos 60, excetuando os parcos protestos contra o aquecimento global. Só. Tudo parece esmaecido pelo consumismo. Pois os comportamentos hoje se reduzem às virtudes privadas dos indivíduos, símbolo do modelo neoliberal, de fragmentação do mundo e exacerbação ególatra-narcisista.
A política, exercício da expressão insigne dos indivíduos que vivem gregárias e coletivamente passa agora ao domínio dos arremedos do oportunismo, da farsa do economês que tudo explica e deixa inexplicado o que explica e nada justifica; a palilogia estéril da linguagem televisiva, a logorréia dos discursos políticos, condenados a visão estreita e despida de sentido transcendente e ético.
Seria oportuno lembrar que, quando a gente fala em política, não estamos nos referindo às penas a uma esfera da atividade humana; não se está falando em governo e governabilidade, mas estamos falando das relações e ações que permeiam toda e qualquer forma de convivência.
As nossas ações, afirma a filosofa Márcia, “colocam em cena as nossas relações conjuntas”. Ou seja, o que eu faço é dirigido a alguém. É impossível que o individuo tenha alguma ação que diga respeito somente a ele próprio. “Nós somos seres interligados”, como sempre nos lembra Edgar Morin, um dos pensadores mais importantes do século XX.
Nós nascemos em meio aos outros. Estamos sempre desempenhando um papel que faz de nós seres políticos. E é a partir dessa relação que construímos uma sociedade democrática, ou autocrata.
Essa matriz inter-retro-relacional, inaugurada pelos antigos gregos e consubstanciada pelos valores religiosos mais antigos já não têm o mesmo brilho de antanho. Hoje, imersos nessa sociedade da hiperestetização da banalidade, tudo converge para os interesses próprios. Perdemos o senso histórico, “vendemos a liberdade por um punhado de lentilhas em forma de segurança”.
Aonde estão às passeatas, as utopias, os ideais de sociedade sem as mazelas que grassam pelas terras do Brasil? Aonde estão os sonhos de um mundo melhor, de um éthos (significa “a casa” “a nossa morada”) que seja o paradigma da nossa convivência harmoniosa entre a terra, homens e todas as formas de vida presentes nesta antiga terra?
Nenhum sinal. Nenhum lampejo. Estão todos confinados em seus lugares, cercados por câmeras, alarmes, seguranças, protegendo-se de um sistema desigual, desumano e brutal que – por comodismo e inércia – ajudam a perpetuar.
Precisamos repensar a política, não esta que existe atualmente no Brasil, que é um espaço de profissionais, mas na verdadeira política, a das relações, e isso começa no dia-a-dia, com a família, aprendendo a compartilhar opiniões, julgando o que é justo ou não; no envolvimento com a comunidade, escola, enfim, uma vocação para aperfeiçoar o espaço comum a todos.

   
             
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