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| Matérias | ||||||
| A GÊNESE DA VIOLÊNCIA NO BRASIL - Helder Modesto | ||||||
Os antigos costumavam ver a cidade (polis) como o espaço de todos. A felicidade (eudaimonia) de seus habitantes estaria na relação que permeia os indivíduos dessa mesma cidade, ou seja, para que a cidade fosse um espaço de todos, para todos, era necessário que as ações dos seus moradores fossem relacionadas ao bem-estar de todos. Os indivíduos não deveriam agir somente pensando em si; o bem-estar e o equilíbrio da pólis exige que todos pautem suas ações na direção do bem-estar de todos. Entretanto, as mudanças que se operaram pós revolução industrial foram sem precedentes, modificando completamente o agir dos indivíduos na sociedade. Entretanto, essas mudanças não foram acompanhadas pelo saber dos antigos. Houve uma perda do referencial simbólico que organiza as praticas e as relações na sociedade. O crescimento das cidades sem a preocupação com o bem-estar de todos, sem a preocupação com a dignidade e com os direitos assegurados pela carta magna, sem atentar para o fato de que, se somos gregários, isto é, se só podemos viver na companhia dos outros, como afirma Aristóteles, faz-se necessário fortalecer os laços afetivos e de amizade (philia) entre os indivíduos dessa mesma comunidade. Assim sendo, fica assegurada a harmonia e o equilíbrio nas relações. Quebrá-la incorreria no perigo de desestruturar essa mesma relação, vindo a “provocar perda de referentes o que produz estado de padecimento psíquico tal como o isolamento, estado depressivo, doenças psicossomáticas, fenômenos melancólicos, drogadição, desagregação familiar, etc. “A perda dos referentes por sua vez propicia estados de desconhecimentos e despersonalização assim como fenômenos típicos do luto. Em Freud (1917) o luto está referido a perda de um ideal, país, família, etc. No luto há a consciência da perda ficando o mundo externo empobrecido e, desse modo, impedindo as elaborações psíquicas para a saída do auto centramento e recuperação da capacidade de articulação em novos contextos sociais. Na melancolia, diferentemente, o mundo interno, o eu, fica vazio, e empobrecido. Se o luto não for elaborado tende a repetição configurando-se uma situação patológica. A questão colocada é: o que se perdeu quando a sociedade age sem a preocupação com os demais? Quando se perde a Pátria, ‘o solo és mãe gentil’, referencial basilar de um povo perde-se a possibilidade de perguntar: o que o Outro quer de mim e enlaçar-se”. Pensando o Brasil, país que tem uma história marcada pela violência, começando pela sua colonização, o modo como se organizou e como se configurou até hoje, sabemos, é extremamente desigual, injusto, marcado pelo estreito espaço hierarquizado com que se criam novas normas a partir de outras. Fica portanto o mal-estar permanente que lhe corrói o tecido gregário e social, cada vez mais violento. |
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