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    A GÊNESE DA VIOLÊNCIA NO BRASIL - Helder Modesto    
   

Os antigos costumavam ver a cidade (polis) como o espaço de todos. A felicidade (eudaimonia) de seus habitantes estaria na relação que permeia os indivíduos dessa mesma cidade, ou seja, para que a cidade fosse um espaço de todos, para todos, era necessário que as ações dos seus moradores fossem relacionadas ao bem-estar de todos. Os indivíduos não deveriam agir somente pensando em si; o bem-estar e o equilíbrio da pólis exige que todos pautem suas ações na direção do bem-estar de todos.

Entretanto, as mudanças que se operaram pós revolução industrial foram sem precedentes, modificando completamente o agir dos indivíduos na sociedade. Entretanto, essas mudanças não foram acompanhadas pelo saber dos antigos. Houve uma perda do referencial simbólico que organiza as praticas e as relações na sociedade.

Como analisa Helena Hirye, examinando a produção da violência nas grandes cidades, observou que o espaço da cidade e as condições de vida nela passaram a ser o foco tanto da organização social quanto da revolta. Os ingredientes da revolta são a falta de perspectiva, as péssimas condições de vida, o desemprego, as poucas possibilidades de mobilidade social e as questões raciais inseridos numa sociedade de consumo exacerbado aos quais poucos têm acesso. Essa realidade produz verdadeiros guetos, muros invisíveis, mundos do lado de fora dos quais não se pode sair.

O crescimento das cidades sem a preocupação com o bem-estar de todos, sem a preocupação com a dignidade e com os direitos assegurados pela carta magna, sem atentar para o fato de que, se somos gregários, isto é, se só podemos viver na companhia dos outros, como afirma Aristóteles, faz-se necessário fortalecer os laços afetivos e de amizade (philia) entre os indivíduos dessa mesma comunidade. Assim sendo, fica assegurada a harmonia e o equilíbrio nas relações. Quebrá-la incorreria no perigo de desestruturar essa mesma relação, vindo a “provocar perda de referentes o que produz estado de padecimento psíquico tal como o isolamento, estado depressivo, doenças psicossomáticas, fenômenos melancólicos, drogadição, desagregação familiar, etc. “A perda dos referentes por sua vez propicia estados de desconhecimentos e despersonalização assim como fenômenos típicos do luto. Em Freud (1917) o luto está referido a perda de um ideal, país, família, etc. No luto há a consciência da perda ficando o mundo externo empobrecido e, desse modo, impedindo as elaborações psíquicas para a saída do auto centramento e recuperação da capacidade de articulação em novos contextos sociais. Na melancolia, diferentemente, o mundo interno, o eu, fica vazio, e empobrecido. Se o luto não for elaborado tende a repetição configurando-se uma situação patológica. A questão colocada é: o que se perdeu quando a sociedade age sem a preocupação com os demais? Quando se perde a Pátria, ‘o solo és mãe gentil’, referencial basilar de um povo perde-se a possibilidade de perguntar: o que o Outro quer de mim e enlaçar-se”.

Pensando o Brasil, país que tem uma história marcada pela violência, começando pela sua colonização, o modo como se organizou e como se configurou até hoje, sabemos, é extremamente desigual, injusto, marcado pelo estreito espaço hierarquizado com que se criam novas normas a partir de outras. Fica portanto o mal-estar permanente que lhe corrói o tecido gregário e social, cada vez mais violento.

   
             
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