No marco da profunda crise aberta no regime com a fraude eleitoral por meio da qual se levou Felipe Calderón a vencer Lopez Obrador nas eleições presidenciais mexicanas, surge no Estado de Oaxaca, no sul do país, um importante processo de luta, até recentemente pouco noticiado na imprensa internacional. Trata-se de um processo que teve início há cerca de cinco meses, na forma de uma greve dos professores, com reivindicações essencialmente econômicas, mas que, frente à intransigência do governador do PRI, Ulisses Ruiz e da repressão promovida por seu governo, foi se radicalizando e assumindo bandeiras cada vez mais políticas, até chegar a colocar no centro das reivindicações a queda do governador.
Com esta bandeira e frente à obstinada recusa do PRI em abrir mão do governo estadual de Oaxaca, o processo tomou características insurrecionais e conformou um poder local, oposto ao governo de Ulisses Ruiz e ao fraudulento regime mexicano, abrindo uma situação revolucionária regional.
Em Oaxaca a polícia não circula, o Palácio do governo e a Assembléia legislativa estão tomados, assim como a maioria dos órgãos de imprensa como rádios, postas a serviço da heróica luta dos trabalhadores e do povo, configurando na capital do estado uma verdadeira comuna.
O poder dos trabalhadores e do povo da Comuna de Oaxaca se assenta sobre a Assembléia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO), que reúne cerca de 365 organizações operárias e populares e que define cada novo passo da luta pela renúncia do governado; e nas barricadas que controlam territorialmente a cidade. Enquanto as barricadas continuam se colocando firmes em sua disposição de resistir a uma possível ofensiva repressiva, milhares de oaxaquenhos, que marcharam durante dias de Oaxaca à Cidade do México, se encontram acampados em frente ao Senado, pressionando pela queda de Ulises Ruíz, e despertando a simpatia e a solidariedade de muitos trabalhadores da capital mexicana que há pouco se manifestavam massivamente contra a fraude eleitoral.
O exemplo de Oaxaca deve ser difundido em todo o mundo, como demonstração do que a classe trabalhadora aliada ao povo é capaz, de que seu processo recomposição é cada vez mais claro, de o avanço de sua consciência e de seus métodos é extremamente dinâmico, de forma que os revolucionários tem que estar sempre preparados (e atuar nesse sentido) para que uma greve econômica possa se transformar em greve política, e a partir daí abrir situações e processos revolucionários. Com esse espírito, dedicamos estas páginas do Palavra Operária à difusão e reflexão sobre a Comuna de Oaxaca.
ANTECEDENTES DA REPRESSÃO/2007
1 de maio – Iniciou o conflito no estado de Oaxaca, quando membro da Seção XXII do Sindicato Nacional de Trabalhadores da Educação (SNTE) entregaram ao governo de Ulises Ruiz um documento com as principais demandas do movimento.
22 de maio – Começou o plantão indefinido de centenas de professores no centro histórico de Oaxaca, com o apoio de organizações sociais. Os professores alegavam que a resposta às reivindicações foi nula, motivo pelo qual ocuparam várias ruas da região.
2 de junho – Realizou-se a primeira megamarcha com uma participação de 80 mil pessoas em apoio ao plantão e em repúdio ao governo estatal. Ulises Ruiz, governador oaxaquenho, lhes deu o prazo de 5 de junho para regressar às aulas.
17 e 21 de junho – Constituiu-se formalmente a Assembléia Popular do Povo Oaxaquenho.
23 e 24 de junho – A assembléia estatal do magistério democrático acordou que se mantenha o plantão e se intensificariam as ações de protesto na cidade capital.
2 de julho – Triunfou o voto de castigo e o PRI perdeu quase a totalidade dos estados.
1 de agosto – Centenas de mulheres rebeldes marcharam pelas ruas e ocuparam instalações de rádio e televisão do governo do estado.
18 de agosto – Realizou-se uma paralisação civil estatal, bloqueram-se as principais entradas à cidade de Oaxaca.
15 de setembro – Em Oaxaca se deu o grito popular de independência.
21 de setembro – Começou a marcha-caminhada pela dignidade dos povos de Oaxaca até a cidade do México.
23 de outubro – Realizou-se outra marcha em Matías Romero em apoio à desaparição de poderes em Oaxaca. Ulises Ruiz “reapareceu” na capital do estado e ameaçou os professores em rescindir contratos e contratar aposentados em caso de não regressar as aulas dia 25.
26 de setembro – A assembléia estatal da Seção XXII anunciou que os resultados da consulta indicam que a base magisterial decide continuar com os protestos até que caia o governador.
2 de outubro – Continuaram as mobilizações militares rumo à cidade de Oaxaca. Marcharam pelas ruas da cidade em memória à matança estudantil de 1968.
7 de outubro – A marcha-caminhada pela dignidade de los Povos de Oaxaca chegou ao Vale de Chalco.
9 de outubro – Depois de caminhar mais de 500 kilometros, os marchistas instalaram um plantão em volta do Senado da República. Funcionários da Secretaría de Gobernación e representantes dos professores e APPO acordaram discutir uma proposta para que a seguridade pública em Oaxaca está a cargo de um comando federal.
14 de outubro – Homens armados abriram fogo contra uma barricada no caminho da colonia Miguel Alemán.
16 de outubro – Começou no Distrito Federal a greve de fome em apoio a desaparição de poderes em Oaxaca.
18 de outubro – Continuaram os disparos noturnos contra acampamentos e barricadas, assim como atos de violência em diversas partes da cidade.
19 de outubro – Em aparições quase simultâneas na televisão e imprensa corporativa, Ulises Ruiz, Flavio Sosa e Enrique Rueda Pacheco (governador e lider da APPO e Seção XXII, respectivamente), asseguraram que no mais tardar em 30 de outubro ocorrerá a volta às aulas. Senadores Mexicanos determinaram não declarar a desaparição de poderes, ainda que reconhecendo que Oaxaca vive uma ingovernabilidade. Milhares de pessoas marcharam em Oaxaca para expressar seu rechazo à proposta legislativa que favorece Ulises Ruiz.
28 de outubro – Se registrou a mais violenta crise desde que iniciou há cinco meses o conflieto social e deixou quatro mortos, entre eles o cinegrafista estadunidense Bradley Roland Will e o professor Emilio Alonso Fabián, que perderam a vida por tiros de arma de fogo.