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    RAUL SEIXAR: SOCIEDADE ALTERNATIVA E CONTRACULTURA - Helder Modesto    
   

Li o doutorado do Luiz Boscato, que foi editado recentemente pela Editora Terceira Margem com o titulo “Vivendo a Sociedade Alternativa: Raul Seixas e o seu Tempo”.
O livro “vem preencher uma das lacunas da nossa produção historiográfica, que é a falta de pesquisas e de documentos sobre os movimentos da juventude na segunda metade do século XX, tendo como eixo temático a vida e a obra de Raul Seixas e o projeto de construção de uma 'Sociedade Alternativa, que esteve nos sonhos e nas lutas de toda uma geração. Nesta obra, o leitor pode desfrutar de uma viagem pelos contornos de uma História que continua a animar corações e mentes de muitos dos jovens das gerações atuais”.
De fato, o livro cobre uma lacuna historiográfica, além de ser um livro de aprofundamento na contracultura, nas reivindicações dos jovens por um mundo de paz, de liberdade e de respeito às diferenças. Disso surgiram as propostas de sociedades sem o dirigismo ferrenho das instituições ordeiras e dos moralismos das instituições religiosas do ocidente e das velhas praticas políticas de discursos vazios e repetitivos. Tudo era contestado, porque tudo precisava ser revisado.
O Boscato faz um belíssimo e aprofundado estudo da obra de Raul e da contracultura, resgatando a verve contestatória e de propostas outras a esse modelo decadente e destrutivo do capitalismo, onde o “mundo administrado”, como afirmava Theodoro Adorno, vai estruturando os comportamentos e os modos de vida a uma prática passiva engendrados pelo “monstro sist”.
Nos anos 60, ricos em protestos, em confrontar os senhores da guerra, em lutar pela emancipação das mulheres, pelo reconhecimento das diferenças, pela liberdade de expressão, não se esqueceram jamais de fazer dessa luta uma conquista de independência. Diferentemente dos dias de hoje, conquistar a independência era um projeto coletivo, mutirão de convicções éticas, obstinação de quem se recusa a acatar o que é como sendo o que será, pois “sabemos muito bem o que não queremos”, afirmava um slogan dos jovens das barricadas de 68 em França.
Nos anos 60, traçados por Luiz Boscato, temos uma volta, à maneira de Rousseau, à natureza, ao bom selvagem. Pois o homem branco ocidental subjugou outras culturas diferentes por achar que eram inferiores. As diversas culturas e suas diversas maneiras de comungar com o sagrado era um paganismo que os brancos colonizadores, que se atribuíam como representantes legítimos de deus na terra, não poderiam aceitar. Com isso, porém, ocorrem as mais terríveis formas de perseguição, de preconceito, de intolerância, culminando em massacres e guerras, pois os diferentes precisam ser aculturados ou eliminados.
Ainda hoje sentimos os efeitos deletérios dessa cruzada dos homens brancos, legítimos representantes de um deus lá nas alturas, nas sociedades do ocidente. Foi Joaquim Nabuco quem nos alertou primeiro para o legado da nossa miséria, ao afirmar que o fim da escravidão não significava a liberdade dos negros, e que essa nódoa haveria de permanecer como entrave nas relações futuras da sociedade brasileira. Vale a pena ler o artigo da Professora Maria Cecília C. C. de Sousa, da USP, na Revsita Freud nº 1.p. 48.
Nos anos da contracultura, bem escrito e bem aprofundado pelo Luiz, mostram-se como os jovens confrontaram e propuseram sociedades alternativas para o modelo engessado e asfixiante de sociedade vigente no ocidente. Foram anos em que a contracultura afrontou os diques do moralismo, lá onde se produz a energia nefasta do fundamentalismo, aquele tipo de filantropia às avessas de quem julga saber melhor o que convém aos outros e insiste em subjugá-lo à sua vontade. E nada como um dos ícones da contracultura para denunciar e cutucar o “monstro sist”, a saber, Raul Seixas.
Desde o surgimento do grande anunciador do “Novo Aeon”, que não pararam de crescer os militantes dessa nova bandeira, a bandeira dos valores infinitos e engendrados pela autonomia das consciências como reduto inexpugnável, a lucidez critica, a coragem de divergir do “Monstro Sist”, e de jamais subscrever o que pereniza a injustiça, a subserviência das consciências, o enquadramento no sistema capitalista e dos arremedos do poder e da desfaçatez.
Raul, na bela tese de Luiz, configura aquilo de que mais precisamos nos nossos dias: a consciência de que a liberdade subjugada pelo modismo, pelo consumismo e pelos sistemas religiosos mais ortodoxos, precisa dar o seu “grito” de independência, mas não com a garganta, como quem exibe uma rebeldia confinada ao niilismo narcísico. Vale é o grito que ecoa, como afirma o escritor Carlos Libanio, “na vida social, suscita o vendaval que semeia utopias, rasga horizontes e aplaina montanhas. O grito uterino dessa avidez histórica que prenuncia albores da partilha. O grito alucinado que imprime sentido à revolução que subverte a causa de todas as misérias”, seja social, psicológica e subjetiva.
Então, mais do que nunca, viva a Sociedade Alternativa.

   
             
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