Já fomos surpreendidos por um pessoal que segurava o tchan - o que quer que isso venha a ser -, abalados por um terremoto enorme que consagrou e levou ao auge figuras como a inesquecível Lacraia e agora estamos novamente sendo moralmente assaltados, dessa vez pela dança do créu. Estamos é ficando atoladinhos, isso sim.
O que aconteceu com as mensagens deixadas por grandes nomes da música que tinham sempre uma palavra de protesto e conscientização? Será que essa nova sociedade imediatista e nada seletiva tem ouvidos capazes de entender grandes gênios que diziam tanto com tão pouco ou seriam eles tachados de caretas nos dias de hoje?
Raul Seixas, em uma de suas inúmeras letras recheadas de sarcasmo, humor e verdade, e sempre atemporais, dizia que "o problema é muita estrela pra pouca constelação". A sociedade tem sede do frescor que a mídia traz diariamente - demonstrando uma total falta de personalidade e reforçando a ausência de senso seletivo -, e bem sabemos que ela não é a fonte mais confiável quando se trata de indicações que envolvam cultura, já que tem como único objetivo alienar e fazer com que o cidadão se cale, vire um robô completamente programado e manipulado, e é justamente aí que mora o perigo: inconscientemente.
Dessa maneira, as pessoas acabam assimilando qualquer ruído que chamam de música e tomando tudo que dizem por verdade, em uma busca contínua, inquietante e inconsciente de tornar a vida aparentemente mais suportável. Para isso, divertem-se da forma mais banal, vulgar e barata, ora segurando o tchan, ora dançando o créu.
Esse tipo de "música" geralmente é proveniente das classes menos abastadas financeiramente. Se as coisas fossem como deveriam, seria justamente essa camada da sociedade a responsável pelo trabalho de protesto e conscientização por meio da música, mas encontrou-se aí um meio fácil de enriquecimento e pouco trabalho, se assemelhando aos nossos respeitáveis palhaços que ocupam as cadeiras mais altas (ou melhor dizendo, as mais baixas) nesse picadeiro chamado política.
Não deve mesmo dar muito trabalho criar uma "música" apelativa, com teor quase sempre ofensivo, e menos trabalho ainda deve ser receber cachês obesos para aparecer em programas de televisão ou receber sua parte referente à venda de discos numa quantidade exorbitante e à inúmeras execuções na rádio - revelando mais uma deficiência dos meios de comunicação, onde se veicula o que está na moda, e não o que tem conteúdo. Devo também mencionar a mordomia de viajar Brasil afora - ou, com um pouco mais de sorte, mundo afora - conhecendo belos lugares, com tudo pago e com vantagens que um operário ou um trabalhador da construção civil, por exemplo, não teriam? E tudo isso como fruto de um belíssimo e enriquecedor trabalho.
Pergunto-me se seria possível mudar o foco de atenção da população que se mostra tão acomodada e não disposta a ouvir o que realmente interessa. Como bem se diz, a verdade dói. É bem mais fácil martelar o martelão, mexer o poposão e ficar boladona sentada na esquina do que levantar a bunda da cadeira e lutar por uma sociedade mais justa.
Como todas as outras formas de entretenimento da atualidade, a música também vem sendo banalizada e se tornando cada vez mais comercial. O que antes era arte, agora é um produto, sendo vendido a preços cada vez mais baratos, onde a qualidade é um fator dispensável, se tornando, assim, uma ameaça constante à sanidade mental dos brasileiros.
Todo esse lixo cultural não anula a existência de artistas conscientes, o problema é que não há espaço para eles no país do "Quem dá mais?".
Com a proliferação da inutilidade e da vulgaridade no meio musical, assistimos a uma decadência que envergonharia grandes nomes como Gonzaguinha, Renato Russo e Cazuza, e que faz com que Chicos Buarques da vida percam o devido valor diante de "artistas" fáceis, comprados e vazios. É assim que cuidamos do futuro do Brasil?