Política    
    CONTRADIÇÕES DO TESOURO BRASILEIRO - Luana Lila    
   

A Amazônia é uma região gigantesca, de difícil acesso, compreende 42% do território nacional, com 11 mil km de fronteira e 22mil km de rios navegáveis. Lá encontram-se de grandes cidades, como Belém e Manaus, a lugarejos isolados sem infra-estrutura alguma.
Marabá é um dos mais importantes municípios do estado do Pará, nela não há saneamento básico, o esgoto corre a céu aberto, a água não é tratada. O maior problema de saúde são as doenças causadas por vermes. O acesso à internet é luxo dos mais raros e a conexão é sempre precária. Depois de ter vivido surtos como o ciclo da borracha e a produção de castanha-do-pará, a atividade econômica atualmente está relacionada ao garimpo. A violência é tão grande que a cidade é conhecida pelos moradores como “Marabala”. Cortada pela lendária Transamazônica, grande parte de suas ruas ainda são de terra.
São cidades como essa que ocupam o território amazônico ao lado de agrupamentos indígenas e reservas ecológicas. E é na Amazônia que o Exército tem grande utilidade, fornecendo infra-estrutura a cidades esquecidas pelo Estado brasileiro. As Forças Armadas têm um importantíssimo papel de acompanhamento médico e construção de hospitais e estradas em regiões completamente carentes e isoladas, de difícil acesso. Aliado a isso, procuram zelar pela integridade territorial da nação. Temem pelo interesse estrangeiro na região e seu objetivo maior é proteger um dos mais cobiçados bens da humanidade.

500 anos de um ponto de vista

A visão política do Exército no intuito de garantir a proteção da Amazônia é ocupar o território para não perdê-lo. Na falta de inimigos bélicos, os militares vêem as ONGs internacionais como grandes vilãs que atuam com o pretexto da preservação para, na verdade, ajudar na prática da biopirataria e incentivar a venda de terras a estrangeiros, contribuindo para a internacionalização da Amazônia. A presença do Estado, que muitas vezes se dá apenas na figura do Exército, seria uma forma de garantir a integridade territorial. Associado a isso, acreditam que deveria haver um processo de ocupação pela população brasileira.
A partir dessa visão, a solução para a questão amazônica é o desenvolvimento econômico, o que exclui a presença de agrupamentos indígenas como forma de ocupação. Dessa forma, um dos maiores esforços do Exército é tornar os índios cada vez mais brasileiros, ou seja, integrá-los à nossa cultura hegemônica.
Isso gera uma discussão importante, pois pressupõe que os índios, que possuem um conceito cultural de nação particular, não são considerados aptos a ocupar o território no sentido de impedir a invasão estrangeira. As Forças Armadas se esquecem que diante do desenvolvimento econômico baseado nas idéias vigentes de civilização eles tendem a perder sua identidade.
O Tenente Coronel Batista, comandante do 34° Batalhão de Infantaria de Selva de Macapá, explica essa visão do Exército ao dizer que os índios devem manter a sua cultura, mas, ao mesmo tempo, deve haver o desenvolvimento sustentável. Talvez os militares não avaliem o impacto da construção de estradas e da manutenção de fazendas que, trazendo o progresso e permitindo o desenvolvimento econômico, muitas vezes também implicam no inchaço populacional, na má distribuição da riqueza e no conseqüente processo de favelização, gerando cidades com tantos problemas como Marabá.
A imposição cultural da civilização hegemônica é uma maneira de aniquilar a cultura ancestral indígena, uma forma de terminar o que começaram os jesuítas portugueses. A intenção do Exercito é a de levar benefícios às populações indígenas e isso é perceptível em seu discurso. Eles se orgulham de suas ações em prol da melhoria das condições de vida das comunidades indígenas, mas também exaltam o fato de que, quando chegam a um agrupamento, os índios cantam o hino nacional e hasteiam a bandeira brasileira. Dessa forma, as Forças Armadas e muitos outros setores da nossa sociedade são incapazes de perceber que estão repetindo os mesmos erros do passado.
Uma das grandes questões amazônicas é a busca por um modo de tornar os índios participantes dessa ocupação, inserindo-os na nação da qual fazem parte sem pressupor que sua cultura seja imutável, mas também sem promover a perda de sua tradição.


   
             
  Copyright CHEGASAOPAULO.com - Todos os direitos estão reservados. Proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita do jornal CHEGA SÃO PAULO.  
 
blog comments powered by Disqus