33% da população da cidade de São Paulo não tem interesse nenhum nas eleições municipais de 2008 e 60% acredita que a qualidade de vida não deverá mudar em função de seu resultado. Esses são dados da pesquisa de opinião pública “Viver em São Paulo”, realizada pelo Ibope em parceria com o movimento Nossa São Paulo, com o intuito de indicar qual a percepção dos paulistanos em relação à cidade. A primeira edição da pesquisa entrevistou 1.512 moradores de todas as regiões do município.
Essa pesquisa é um dos eixos do movimento Nossa São Paulo, lançado em maio de 2007 com o intuito de formar força política e social capaz de promover uma melhora da qualidade de vida na cidade. O movimento conta com um amplo apoio da sociedade civil, com a participação de mais de 200 entidades e ONGS e, aproximadamente, 150 empresas.
Maurício Broinizi, professor de História da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), integra a secretaria executiva do movimento e explica que ele surgiu como uma forma de combater a falta de perspectiva política da população.
Uma das principais funções do movimento é a apresentação de indicadores sociais, ambientais, políticos e econômicos sobre a cidade e suas subprefeituras. Os indicadores, organizados em temas como saúde, educação, trabalhos, renda, etc, permitem o acompanhamento e a fiscalização do poder público e, consequentemente, da qualidade de vida da cidade.
Em São Paulo foi aprovado, com o apoio do movimento, no dia 19 de fevereiro, o projeto de emenda à Lei Orgânica, que obriga o prefeito eleito a divulgar, em até 90 dias após a posse, um Plano de Metas de sua gestão que esteja de acordo com as diretrizes divulgadas anteriormente em sua campanha eleitoral e, a cada seis meses, o prefeito deverá prestar contas à população.
Subprefeituras
Os indicadores realizados nas subprefeituras mostram qual o orçamento municipal destinado a cada uma delas: a de Pinheiros, na Zona Oeste, é a que recebeu maior orçamento em 2006, enquanto subprefeituras de regiões periféricas, como Parelheiros, que têm mais necessidades infra-estruturais, recebem as menores verbas, sendo Capela do Socorro a que recebeu o menor valor em todo o Município.
De acordo com Broinizi, essa tabela também permite perceber as zonas de influência da cidade, sendo os bairros mais ricos os de maior capacidade de pressão política. Além disso, o simples conhecimento da informação possibilita a mudança, como foi o caso da subprefeitura de Cidade Ademar, na Zona Sul, na qual os líderes tomaram conhecimento dos dados, os apresentaram na subprefeitura como forma de pressão e acabaram triplicando seu orçamento.
O movimento procura incentivar a atividade política baseado no ideal de democracia participativa, com a defesa dos interesses públicos, a formação de conselhos regionais e a descentralização do poder. A administração do movimento é feita em forma de rede, com a secretaria executiva sendo responsável por articular os grupos de trabalho, todos voluntários e com ampla autonomia. 32 empresas ajudam financiando os trabalhos, pagando uma cota anual.
Outras cidades, como Rio de Janeiro e Ilha Bela, já estão seguindo o exemplo e procurando organizar programas como esse. Mas Broinizi comenta a dificuldade de concorrer com a cultura de massas e a desinformação.
Atividade Política
Para ele, a atividade política no Brasil, as instituições públicas e a democracia estão com a credibilidade abalada perante a população. E os motivos são muitos. O professor citou como causas o longo período de ditadura que o país atravessou, com a reconstrução da sociedade civil se dando a partir de uma hegemonia neoliberal que, além de proporcionar o individualismo, também gera competição, deixando as pessoas desiludidas e desacreditadas.
Ele acredita que o neoliberalismo minou as perspectivas sociais e criou um ceticismo em relação a propostas alternativas. Também afirma que a classe política adota linguagem, métodos, comportamentos e práticas que acabam por afastar a população e dar uma conotação negativa a esse setor. Por exemplo, segundo a pesquisa do Ibope, 74% dos entrevistados acham que há pouca eficiência nas instituições públicas.
As opiniões de alguns estudantes da PUC-SP ilustram a falta de perspectiva política a que Broinizi se refere. Por exemplo, Marcos (que preferiu não se identificar), 33, estudante de Geografia, vota nulo em todas as eleições, pois vê a organização de passeatas como uma manipulação, já que a ordem continua sempre a mesma e a situação real nunca muda.
Já José Octavio Paes, 19, aluno de Multimeios, crê na arte como forma de mudança, pois acredita que ela mexe com o sentimento, e não com a razão, o que seria uma outra forma de fazer política.
Pedro Sang, 19, estudante de Psicologia, tem vontade de participar de manifestações de protesto, mas não gostaria que seu ato fosse tutelado pelos movimentos que organizam as mobilizações. Segundo ele, deveria haver um modo para que qualquer um pudesse se manifestar sem ter de se encaixar em formas ou idéias pré-formadas.
Ana Roman, 19, estudante de Psicologia, concorda. No seu ponto de vista, militantes de partidos ou movimentos estudantis muitas vezes não percebem que fazem parte de um jogo maior. Eles assumem posições previamente estabelecidas, afirmando sempre ser contra, mas não buscam caminhos que estimulem novas indagações ou posições autênticas.