Por 48 votos contra 29, e quatro abstenções, o ex-presidente do Senado, Renan Calheiros, foi absolvido da acusação de que teria usado laranjas na aquisição de meios de comunicação em Alagoas.
Considerando o seu comportamento padrão nos últimos tempos, o Senado fez o que dele se esperava. Pelo espírito de corpo e pela cumplicidade que prevalece entre os senadores quando se trata de julgar um colega, surpresa seria se tomasse outra atitude que não a absolvição do chefe.
Durante todo o processo que mergulhou o senador alagoano num mar de denúncias que iam desde o recebimento de propina de empreiteira até a espionagem de colegas, passando pelo favorecimento a uma cervejaria e a sociedade secreta com o usineiro João Lira,na aquisição de meios de comunicação, ficou patente que a maioria dos senadores somente se movia no sentido contrário ao de Renan quando a pressão da opinião pública e da mídia era insuportável.
Licenciado da presidência Renan viu arrefecer os ânimos contra ele, e o clima do Senado desanuviar, ao mesmo tempo em que crescia o sentimento generalizado na Casa de que renunciando à presidência ele estaria suficientemente punido.Livre do cerco constante da imprensa e da pressão da opinião pública, que marcaram os meses em que ele esteve sentado na cadeira de presidente, Renan pode gozar de um quase providencial ostracismo, com liberdade para atuar nos bastidores em favor de sua absolvição.
A partir de então, a questão Renan deixou de ser uma questão predominantemente moral e ética, e passou a ser um caso eminentemente político (e imoral ), ou seja, a sua cassação ou não passou a estar condicionada a disputa entre o governo e a oposição pela aprovação da CPMF.
A princípio, o governo quis separar as duas questões com receio de que a volta da discussão sobre o caso Renan contaminasse e jogasse para segundo plano as discussões sobre a prorrogação do imposto. Percebendo que seria impossível divorciar as duas questões, o governo mudou de tática e patrocinou um acordo na sua base de apoio: o PT daria os votos pela absolvição de Renan sob o compromisso do PMDB de votar pela prorrogação do tributo. A primeira parte foi cumprida. Falta a segunda parte.
Justiça seja feita: não se pode culpar exclusivamente o posicionamento da bancada do PT pelo resultado da votação de ontem, embora ele tenha o seu peso. Igualmente contribuíram para o fim trágico, o pífio relatório do senador Jefferson Peres e a dissensão na bancada oposicionista – tucanos e democratas – onde alguns senadores discursaram a favor da ética , mas, na votação secreta, votaram com Renan.
Este Senado e o seu ex-presidente se merecem. Devem pedir desculpas um ao outro pelos transtornos mútuos causados nos últimos meses. O senadores partem, agora, após resolverem o problema da sucessão da presidência, para a decisão sobre a prorrogação da CPMF. Alguém ainda duvida do resultado?